Anjo Embriagado (1948) – Crítica

Yoidore Tenshi, Akira Kurosawa

Enquanto rolam os créditos iniciais de “Anjo Embriagado”, o que vemos é a terra sendo molhada pela chuva. A lama. É um início preciso para esse filme de Kurosawa, já que sua câmera acompanhará personagens que se encontram nesse estado. São personagens sujos, desiludidos, sem esperança. São várias facetas do fracasso. O fracasso profissional, o fracasso nos relacionamentos, o fracasso diante de uma doença severa. E o mais triste disso tudo é que os personagens não parecem enxergar a porta de saída, a rota de fuga, isso se elas realmente existirem.

O filme começa à noite, um período em que a cidade retratada por Kurosawa mais parece uma cidade fantasma. Logo após os créditos passeamos por algumas das partes daquele cenário onde reside o médico. Um homem solitário tocando um violão. A chuva que não cansa de transformar o chão em lama. O diretor japonês usa um pouco mais da natureza para caracterizar aquele ambiente, mosquitos insuportáveis rodeiam os habitantes daquele local. Mesmo com personagens adicionais, Kurosawa estabelece o foco de sua narrativa desde o início, ao mostrar o relacionamento do médico com o gângster Matsunaga. Dois homens de temperamento explosivo e vícios, e que acabaram pagando por isso em algum momento da vida.

Quando vemos que um dos personagens é um médico, podemos concluir que de alguma forma ele será respeitado pelas pessoas que o rodeiam. O caso de Sanada não é esse, e isso fica bem claro quando ele manda as crianças pararem de brincar na água, a fim de evitar que alguma delas fique enferma. A resposta não é a que esperamos, “ok, doutor, vamos tomar mais cuidado”, ou algo do tipo. As crianças são rudes, mostrando nenhum respeito pelo médico. Mas no decorrer da obra, o roteiro vai dando as cartas, mostrando que a causa desse desrespeito não para com sua profissão, mas a culpa é do ser humano, do próprio Sanada. Vemos suas características, um homem rude, de fala ríspida, e alcoólatra. Tanto que seu antigo colega de faculdade conseguiu ser um bem sucedido médico, enquanto ele preferiu o álcool e outros vícios.

Matsunaga, membro da yakuza, é o homem que se acha imbatível. Mais uma vez Kurosawa discursa sobre o poder que a doença exerce sobre o ser humano, assim como o ótimo “Duelo Silencioso”. O diagnóstico de tuberculose serve para ir desmanchando aquela carcaça aparentemente rígida. Aos poucos a câmera de Kurosawa acompanha sua degradação, seu declínio não só físico como psicológico. De chefão da área até um homem perdido em suas inseguranças. Uma das formas que Kurosawa mostra esse caminho é através de closes precisos no rosto de Matsunaga em algums momentos decisivos do filme. No primeiro encontro entre o gângster e o médico, o segundo compartilha a suspeita da doença. Close em Mastrunaga e a raiva estampada. Já em outro momento, a dúvida. Mais para frente, finalmente, o medo.

A câmera de Kurosawa não se mexe muito durante o filme, sua direção se baseia mais em orquestrar o movimento de seus personagens no plano, traduzindo a relação entre eles. Até na hora do clímax, onde a câmera entorta dando um ótimo efeito da tensão presente nas ações dos personagens naquele momento. Mas o maior momento da obra é o pesadelo de Matsunaga, quando ele encontra sua versão morta na praia. O filme inteiro tem uma abordagem bem direta, e nessa cena Kurosawa aposta em algo mais simbólico. Matsunaga dando machadadas no próprio caixão, a cena do filme.

4/5

Augusto Cesar

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Feliz 2012!

Mais um ano passou…

É, pessoal, a vida é assim! Nossa vida é feita de metas, e sempre desejamos as coisas boas. Esse conceito de ‘’ano bom’’/’’ano ruim’’ é muito particular; cada um tem sua vida e faz dela o que bem entender, mas quando conseguimos conquistar aquilo que mais desejamos, um particular ”ano bom” se forma. E aí, você teve um ano bom?  Por vezes tentamos fugir da realidade, por outras tentamos explorá-la… Aqui, no Pudim de Cinema, vivemos assim, pois isso é o cinema!

O nosso queridinho blog Pudim de Cinema nasceu em 2010, e no início apenas um par de mãos cuidava dele [o meu]. Inicialmente era apenas um espaço pessoal e sem compromisso que surgiu no Blogger. Hoje, como podem ver, o blog evoluiu muito, e está hospedado no WordPress com uma equipe (sim) para cuidar dele. Um por todos, e todos por um.

Nós daremos o máximo que pudermos para fazer o que for necessário para agradar ao leitor em geral (e até nós mesmos). E não se engane. Se imagina que o blog é um espaço onde apenas o formal marca presença, com todas as normas cultas da linguagem apropriada para uma reunião de trabalho, imaginou errado. O blog é de todos. Do underground popular ao cult, o amor pelo cinema continua o mesmo, e a porra toda evolui.

Gostaria de agradecer humildemente à excelente equipe que me ajuda com essa tralha toda aqui. Pois vou lhes confessar, amigos, é duro cuidar de blog – incluindo o Pudim, eu cuido e dois, e ainda por cima contribuo com o Ornitorrinco Cinéfilo. É ruim mas é bom ter todo esse peso nas costas… nada melhor que trabalhar pelo prazer.

Nunca vou me esquecer do dia em que Iago Gomes (desapareceu sem nem dar notícias… mas vai mesmo assim) entrou para a equipe. Na verdade, antes do Iago ter entrado para o Pudim, apenas eu comandava a casa. Logo após o Ítalo Lobo (esse deve ser parente do Leão Lobo) pediu para fazer parte da equipe, e assim o fiz… o cara ajudou muito com a arrumação da casa, e continua ajudando. Bruno Santos (também conhecido como Brunny, lá nos fóruns do Cineplayers) foi o terceiro camarada a fazer parte da equipe, com seus excelentes textos e seu gosto apurado por filmes. Já Augusto Cesar é o mais novo… é o caçula da casa (não faz nem um ano ainda que entrou…), mas já mostrou tanta competência que me espantei: além de escrever excelentes textos, tá sempre por aqui na vigia.

Eh bien, amigos… Eu só tenho é que agradecer pela companhia de vocês (incluindo vocês, nossos leitores!)!!!

Feliz 2012! Que Deus (ou seja lá em quem você acreditar…) os ilumine!

Victor Ramos (Jerome)

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A Hora do Lobo (1968) – Crítica

Oras, o que podemos falar sobre esta estranha obra de Ingmar Bergman? Podemos iniciar tudo com a afirmação de que se trata de uma obra de Ingmar Bergman, falecido cineasta sueco – cujo nome permanece vivo. Qualquer um que desconheça (embora aprecie parcialmente) o real sentido do gênero terror achará que A Hora do Lobo é um filme sobre lobisomens, semelhante àqueles filmes fantásticos produzidos pela Universal em meados dos anos 1940. Mas este não é um filme sobre lobisomens, nem sobre lobos; segundo Bergman, ‘’a hora do lobo’’ (curiosa expressão popular citada no filme) é simplesmente ‘’a hora em que a maioria das pessoas morre… e a maioria nasce.’’. Esta frase resume o filme. É essencial, porém complicada. Mas é justamente aí que está o ponto que resume o filme: é complicada.

Bergman construiu um filme abstrato para contar aquilo que tanto desejava. Este é um filme sobre a loucura humana, tão sombria; também é sobre o poder imaginativo que todos nós guardamos. Vendido como terror – o único na carreira do cineasta -, A Hora do Lobo possui um excelente pacote de propostas eloquentes; não é à toa que remodelou o gênero primário ao qual pertence, revelando assim, com esta remodelagem, novas vertentes para outros artistas trabalharem com o mesmo – Almodóvar, delicado que é, certamente não teria se envolvido em um filme como A Pele que Habito, que é terror, sem as portas abertas por Bergman em A Hora do Lobo. O sueco ensinou que o terror pode ser eclético.

Não há sustos. Não há massacre. Não há fantasmas. Há apenas a força da imaginação humana, que pode criar monstros abstratos melhor (ou pior, se você preferir) que qualquer elemento concreto; seu realizador não se preocupou em deixar a estrada explícita: deixa o espectador julgar as imagens por si próprio; a partir daí todo o mal que o filme necessita é criado. O antagonista do filme é você, o sujeito que fixa os olhos na tela. Além de tudo, o filme é tão poético que, provavelmente, renderia um bom romance – ideia, um tanto descartável para a ocasião, que deixaria qualquer leitor assíduo com altas expectativas -, o que prova, mais uma vez, a sensibilidade artística de Bergman.

Completando a genialidade de Bergman, há a excelente direção de fotografia preenchida por Sven Nykvist; até mesmo o mais leigo a respeito de imagens saberá captar aquele toque de paixão oriundo de Nyvist. O preto e branco de A Hora do Lobo é mais que hipnotizante. Mas o que seria do tabuleiro de Xadrez sem seus peões? O que seria de A Hora do Lobo sem seu elenco meticulosamente selecionado? Max Von Sydow se destaca, se supera! Consegue caminhar com seus próprios pés, sem esperar pela condução do filme. Normalmente um ator de cinema é conduzido pelo filme como se fosse uma marionete, mas neste caso a coisa é diferente; neste caso não há inversão de papéis, há apenas um forma peculiar de trabalho que apenas os bons atores possuem: Sydow não é conduzido pelo filme, pois consegue cortar seus cordões manipuladores e andar sozinho. E como ele faz isso bem. Posso falar o mesmo sobre Liv Ullmann, mas vamos evitar repetir elogios.

Curiosamente, o filme vem recebendo altas classificações indicativas – até mesmo o ‘18 anos’ entrou no pacote. Isto se dá pela tortura psicológica pela qual o espectador é submetido. Quase não há violência, nem algo do tipo. Não. Tudo isso é fruto da genialidade de um artista que tinha domínio total sobre sua obra: o medo não é, necessariamente, impulsionado pelo concreto; o abstrato pode ser muito mais pavoroso, e assim ele o é em A Hora do Lobo. Bergman chegou a dizer que este é um filme sobre vampiros… e por que não? Não é curioso aquele grupo de pessoas que vivem sugando a sanidade do pobre casal de protagonistas?

Não foi feito para ser entendido, por assim dizer, e sim para ser compreendido. Apenas tente explorar a proposta do filme: a loucura. Sendo o filme parte de um universo onírico, não tente relacioná-lo a alguma experiência da vida real. Apenas assista, e diga o que vê. O argumento é complexo, mas a película é de fácil compreensão.

(Poderia resumir todo este texto em apenas poucas palavras: A Hora do Lobo é um filme que quase chega à perfeição.)

Avaliação: 5/5

Victor Ramos

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O Monstro de Londres (1954) – Crítica

The Sleeping Tiger, Joseph Losey

Joseph Losey teve uma carreira muito conturbada. Ele fez parte da famosa lista negra de Hollywood, fato que o obrigou a deixar os Estados Unidos e ir para a Inglaterra. Não é de se espantar, é só assistir seu primeiro filme, “O Menino dos Cabelos Verdes”, que é uma contundente crítica às guerras disfarçada de conto infantil. Seu primeiro filme em solo inglês é esse “O Monstro de Londres”. As dificuldades eram óbvias, tanto que teve que assinar esse filme com o pseudônimo Victor Hanbury. Até mesmo alguns atores que fizeram parte do filme estavam receosos de participar de uma obra de Losey por medo de possíveis prejuízos em suas carreiras hollywoodianas.

Nesse primeiro passo em novas terras, Losey decide se afastar um pouco do cunho social mais claro presente em suas primeiras obras – inclui-se aqui também a refilmagem do clássico de Fritz Lang, “M”. Não que “O Monstro de Londres” não dialogue com questões sociais, mas a abordagem é mais intimista, o que fica em primeiro plano é a dissecação do ser humano. Abrir a carcaça dos personagens e vasculhar todos os turbilhões que estão lá dentro. Os personagens de Losey nunca são fáceis de serem compreendidos. Sempre muito complexos, cheios de contradições, e nunca é possível fazer algum tipo de conclusão analisando somente a superfície. E essa é regra é muito mais valiosa nesse filme, já que estamos falando da casa de um renomado psiquiatra e sua bela esposa. Ao decidir tratar um criminoso em sua própria casa, o psiquiatra, sem saber, muda a ordem das coisas.

A primeira base é o casamento entre Clive e Glenda. O médico anda pela casa como se fosse um robô, um zumbi. Sem a capacidade de demonstrar um mínimo traço de emoção, essa característica acaba refletindo no seu relacionamento com a esposa. E Glenda acaba recebendo tudo isso por inércia, ela não faz nada pra mudar a situação. Não demonstra, a princípio, nenhum tipo de reprovação para com as atitudes do marido.

Precisamos de pouco tempo de filme para começar a perceber as mudanças que a chegada de Frank, o delinquente, começa a provocar. Como o marido pensa no trabalho acima de tudo, normal que ele não esteja no momento para deixar claro para todos o que está acontecendo. A esposa é pega de surpresa, até a empregada sabe mais que ela sobre a situação. A primeira reação de Glenda é o preconceito, o instinto, a revolta, não entende como o marido teve a coragem de colocar aquele tipo de pessoa dentro da própria casa. Então o desprezo já começa a dar as caras, a desconfiança presente em todos os gestos. A empregada da casa também vai por esse caminho. Mas seu preconceito ganha forma mais clara através do medo.

A chegada do criminoso quebra os pilares do relacionamento do casal, Glenda com o passar do tempo, vê sua repulsa se transformar em atração, já que Frank representa tudo aquilo que ela não tem, o privilégio do imprevisível, o improviso, a paixão, o de viver em risco. Aos poucos as barreiras vão caindo, chegando a um dos momentos chaves do filme, quando Glenda, mesmo após todos os conflitos, vai até a porta do quarto em que Frank está hospedado e o chama para ir cavalgar. Emblemático.

Já o marido, Clive, trata o caso de seu paciente com a mesma frieza com que leva a vida com sua esposa. Por mais que pareça um ato de bondade, não conseguimos ver isso no decorrer da obra. E Losey faz questão de, em diversos momentos, enquadrar apenas o rosto de Clive, para mostrar a frieza estampada no rosto de Alexander Knox. E o personagem vai tomando atitudes que na teoria são calorosas, mas tudo na mesma calma, sempre com a mesma expressão no rosto.

Por mais que o marido seja parte essencial da engrenagem, é no romance entre Frank e Glenda que “O Monstro de Londres” tem sua maior força. Eles traçam caminhos opostos durante o filme. Enquanto vemos o trajeto de Frank partindo de um criminoso até uma pessoa capaz de tomar uma decisão extremamente sensata, sem ser egoísta, Glenda vai caminhando para a auto-destruição, mergulhando em uma loucura, o tal do ‘tigre adormecido’ do título original. O ‘tigre adormecido’ que é citado em determinado momento do filme, um tigre que todos temos, que está apenas esperando o momento certo para aparecer. Como já disse, é um filme com camadas, complexo. Existe um momento chave do filme que nos ajuda a compreender toda a natureza da obra. Na casa do casal, alguém coloca uma música na vitrola. Glenda e Frank começam a discutir calorosamente. Eles andam pelo cômodo da casa. A trilha sonora vai acompanhando, aumentando seu volume e dramaticidade. Glenda sobe as escadas e Frank fica por lá mesmo. A empregada passa, e desliga a vitrola, dando um corte bruto na ‘trilha sonora’. Que coisa.

5/5

Augusto Cesar

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Aniversário com clima natalino!

Um dos cabras mais ousados e antigos do blog, Bruno Santos, faz aniversário hoje! Não sei como é, mas imagino como deve ser bom misturar os presentes de aniversário com os de natal, e misturar o bolo de aniversário com o chester e o panetone. Putz… não é todo mundo que tem essa sorte não, eim… 

Parabéns, Bruno Santos! Muitos anos de vida, compañero!

 

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Aniversário Macabro (1972) – Crítica

Mudar completamente aquele rumo moralista presente ainda no início dos anos 70 fora uma tarefa para poucos, principalmente dentro de projetos relacionados ao cinema. Essas poucas pessoas que ousaram realizar tais projetos eram, mesmo sendo perseguidas pela maioria moralista, algumas das mais importantes peças do nosso tabuleiro de xadrez mundano: barreiras, que impediam a liberdade de argumentos artísticos, foram derrubadas sem o menor pudor. Os frutos destes grupos ousados são, ainda hoje, divididos entre o público pelo amor e pelo ódio – dificilmente há o meio termo -, mas, sentimentos pessoais à parte, se não fosse tamanha coragem de tais obras, não teríamos hoje tamanha sacanagem que tantos gostam de ver, seja naquele filme de ação divertido e bastante violento ou naquele filme de terror sangrento que até mesmo alguns falsos moralistas apreciam. O engraçado de tudo é que o que mais choca o público (falso) moralista não é a violência isolada, mas sim o sexo somado a ela; mas, sinceramente, para mim são farinhas do mesmo saco que, isoladas ou não, são as mesmas coisas. Bah, é tudo ficção!

Wes Craven é conhecido hoje pelos seus clássicos filmes de terror bastante apreciados pela grande maioria, afinal, quem dos atuais fãs do gênero não gosta de A Hora do Pesadelo (1984) ou Pânico (1996)? Mas muitos não conhecem o passado negro do realizador: Craven nem sempre agradou demasiado. Em 1972 algumas partes do mundo viram algo inédito, até então, com o filme Aniversário Macabro, dirigido pelo próprio Craven. Filme de terror naquela época era sinônimo de fantasmas ingênuos assustando a todos, naquele velho estilo de Roger Corman. Eis que chega Craven, carrancudo e audacioso como poucos, com um filme intitulado The Last House on the Left (título original de Aniversário Macabro), que subverteu tudo que o cinema já viu – principalmente em se tratando do gênero ao qual pertence. Hoje o efeito ainda é chocante, mas já é comum encontrar em filmes cenas de estupros e saber digeri-las sem fazer cara feia; mas nos anos 70 a coisa não era assim, e o primeiro trabalho de Craven como diretor fez muita gente entortar a cara nas salas de cinema – para ser eufêmico.

Mesmo sendo um pacote insano já comum aos olhos da atualidade, as cenas de violência presentes em Aniversário Macabro podem ainda ser consideradas chocantes, pois o tom amador do filme, que é o ponto-gênese, dá a tudo aquele toque imenso de realidade frequente em filmes de baixo orçamento – o que este filme é. Com toda certeza, em sua época o trabalho teve um efeito maior, tanto que teve diversas cenas cortadas em vários países – e até mesmo expulso de outros -, muitas pessoas abandonaram as salas no meio da exibição e, ainda por cima, há até mesmo boatos de que os atores se sentiram mal durante as gravações – por conta daquele clima macabro dos sets. Foram inseridos alguns elementos pequenos de humor – creio que Craven inseriu para diminuir o peso – que podem hoje ser captados com mais facilidade, já que a mente do mundo amadureceu consideravelmente perante certas coisas. A verdade é que o filme tem mais acertos que erros, mas não passa de um bom trabalho.

Primeiramente, o elenco é tão amador quanto à produção. Atores inexpressivos é o que há, mas há também uma grande surpresa aí: o ator David Hess. Hess não é nenhuma estrela de primeira grandeza, mas seu papel como Krug – um dos vilões – é violador, e talvez também seja a melhor coisa do filme. Hess dá vida a um psicopata que poucas vezes o cinema viu: friamente frio e calculista (!!!). Não é surpresa o fato de que Hess tenha se tornado a menina dos olhos de Ruggero Geodato (polêmico realizador de Holocausto Canibal), pois maluco com maluco sem entende, não é? Hoje o nome de Craven está inserido na nata das produções de terror, mas seu passado, como falei, foi negro. Aniversário Macabro pode soar gratuito por vezes, mas nunca inútil. Como toda obra polêmica, uns amam e outros odeiam, isso é inevitável; mas vamos pensar no hoje: o que se produz para o cinema adulto é, absolutamente, reflexo de filmes como Aniversário Macabro. Hoje os mesmos pais que condenam um Serbian Film (polêmico trabalho do ano 2011, expulso de vários países, inclusive de algumas salas do Brasil) deixam seus filhos assistirem a Jogos Mortais da vida… engraçado, não? Contradição! Não conhecem o poder da ficção… Bem, de todo modo, se você aprecia um filme negro, não perca mais seu tempo e assista logo um dos primeiros exemplares de Craven. Mas uma coisa lhe peço: tenha maturidade para assisti-lo.

Avaliação: 3/5

Victor Ramos

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Especial John Carpenter (Biofilmografia)

 John Howard Carpenter, mais conhecido simplesmente como John Carpenter, nasceu em Carthage, Nova York, 16 de Janeiro de 1948. Filho de Milton Jean e Howard Ralph Carpenter, é também admirador assíduo de filmes fantásticos, sendo eles, em conjunto, sua principal fonte de influência de trabalho. Profissionalmente, trabalha com cinema (como diretor, compositor, roteirista, ator, produtor, editor, etc) desde a década de 1960, porém foi a partir dos anos 70 que seu brilho foi se expandindo de fato.

O gosto de Carpenter pelo cinema vem de velhos tempos: quando criança costumava assistir filmes de ficção científica e faroeste. Muitos dos cineastas, que ao longo do tempo influenciaram Carpenter em seus filmes – nomes como John Ford e Howard Hawks -, são figuras de sua infância, mas com a maturação outros nomes exemplares surgiram em sua lista particular dos favoritos.

Como foi em 1978, com o filme Halloween, que Carpenter se envolveu com os slash movies, e ainda nessa época o giallo (‘’irmão’’ italiano do slash) estava no gosto do povo, Dario Argento – que é o mais importante diretor a representar o gênero italiano citado há pouco – já tinha se tornado mais um dos favoritos de Carpenter. Podemos dizer com convicção que se não fosse por Dario Argento, provavelmente não existiria Halloween.

Explorando um pouco melhor a fonte da qual Halloween surgiu, vale lembrar que foi principalmente com o filme Prelúdio para Matar (Argento), de 1975, que Michael Myers, um dos maiores vilões de todos os tempos, viu pela primeira vez a luz da vida.

Mas há muito mais dentro da madura lista particular de John Carpenter: voltando um pouco mais no tempo, para 1976, temos o clássico Cult Assalto à 13ª DP, que faz claras referências a filmes de diretores como George Romero (alguém reparou as semelhanças com A Noite dos Mortos Vivos, de 1968?), só para citar um dos mais ‘’novos’’ ídolos na vida do diretor, naquela época.

Michael Myers em uma cena do filme Halloween (1978)

Mas, como já foi dito, Carpenter só ganhou fama mesmo com Halloween. O caso do filme Halloween foi um tiro disparado por um cego, mas que acidentalmente acertou o centro do alvo: o filme teve um orçamento bastante limitado (US$ 325,000), tanto que os atores usaram até suas roupas pessoais para as filmagens (o pessoal da equipe de filmagens não tive dinheiro para contratar figurinista) e a famosa máscara branca do assassino foi comprada em um mercado próximo ao local das gravações (por preço de banana). Mas, como já é sabido, o filme teve um grande retorno: arrecadou US$ 47 milhões só nos EUA. Detalhe: a trilha sonora do filme foi composta pelo próprio John Carpenter.

Logo após o americano dirigiu alguns filmes para TV, mas pulando essas televisivas obras menores, temos A Bruma Assassina, de 1980. A Bruma é um filme que, do mesmo modo que Halloween e Assalto à 13ª DP, não foi apenas dirigido por Carpenter, mas também escrito. É possível observar que com este filme o cineasta deu um enorme salto em sua carreira: se com Halloween ele se envolveu com uma atriz ainda pouco conhecida na época (foi o primeiro papel de Jamie Lee Curtis como protagonista), com A Bruma ele teve contato com um nome de muito peso dentro desse cinemão de suspense, Janeth Leigh, a famosa vítima da cena do chuveiro de Psicose. Sim, Alfred Hitchcock influenciou muito o Carpenter, e não é à toa que Myers anda o tempo todo com uma faca de cozinha em mãos.

No ano seguinte, 1981, a coisa evoluiu mais ainda, formando assim uma inesquecível dupla sertaneja cinematográfica: Carpenter e o ator Kurt Russell (não é o já falecido Ken Russell). Kurt trabalhou com Carpenter pela primeira vez em Fuga de Nova York, um filme que mistura ficção científica com ação e suspense. Mas esse filme não é, hoje, o mais recordado a respeito da famosa dupla. Mais um ano depois, 1982, surgiu o filme O Enigma do Outro Mundo (cujo título original é The Thing) que é, na verdade, refilmagem do pequeno clássico de Hawks, O Monstro do Ártico (cujo título original também possui o ‘’The Thing’’ no meio, mas é, por completo, The Thing From Anoter World), de 1951. O Enigma não teve muito sucesso em sua época, mas hoje é considerado um dos maiores clássicos do diretor e também, como já foi sugerido, um dos mais notórios trabalhos oriundos da parceria entre o diretor e o ator Russell.

Uma curiosidade é que há uma cena em Halloween em que uns meninos (personagens) assistem The Thing, de Hawks, na TV. Outra curiosidade é que Carpenter diz que sua versão de The Thing é a primera parte da ‘’Trilogia Apocalipse’’, e a segunda e terceira parte são, respectivamente, os clássicos O Príncipe das Trevas (1987) e À Beira da Loucura (1994).

Kurt Russell e John Carpenter no período das filmagens de Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986). Filme também dirigido por Carpenter.

Uma adaptação de um romance de Stephen King surgiu em 1983: Christine – O Carro Assassino. No Brasil esse filme é mais conhecido por ter figurado nos bons e velhos tempos em que filmes de terror eram exibidos nas sessões das tardes, na TV. Como o cinema de Carpenter é de marca própria, o resultado do filme não saiu muito semelhante ao romance, o que desagradou os fãs do maior nome da literatura fantástica contemporânea.

Já em 1988 surge Eles Vivem, que é considerado por muitos a obra máxima de Carpenter. É um misto de ação, ficção científica e suspense. O filme é uma enorme fonte de crítica social que condena principalmente os efeitos do capitalismo, mas nem por isso o trabalho perde sua riqueza aventureira que tantos admiram. Keith David, que também trabalhou em O Enigma do Outro Mundo, é o ator coadjuvante; já o ator principal é Roddy Piper, que se imortalizou com o papel que lhe foi dado: John Nada.

Uma das cenas finais de Eles Vivem.

A carreira do cineasta já estava sólida por aqui, e uma legião de fãs já tinha sido formada. E, a partir daí, outros filmes nasceram pelas mãos do homem tanto falado neste texto: Memórias de um Homem Invisível (1992), À Beira da Loucura (já citado), A Cidade dos Amaldiçoados (refilmagem do ano 1995 do filme A Aldeia dos Amaldiçoados, de 1960), Fuga de Los Angeles (filme do ano 1996, que é  também sequência do filme Fuga de Nova York), Vampiros de John Capenter (título horrível, não?… esse filme é de 1998), Fantasmas de Marte (2001) e, por fim o mais recente, Aterrorizada (2010). Todos os filmes citados há pouco foram feitos para as telas de cinema, mas alguns televisivos surgiram por aí – Pesadelo Mortal (2005), filme pertencente à série de filmes Mestres do Horror, é um deles.

Pois bem, pois bem, pois bem… ainda não assistiu a nenhum filme de John Carpenter? Se não, não acredito! Então corra atrás! Repare no estilo único dele e se delicie com a arte de contar histórias!

“Sou só mais um realizador, nada mais!”

Deixa de humildade, cara! Você é mais!

Victor Ramos

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