Aterrorizada (2011) – Crítica

 Se um diretor aclamado pelo público e pela crítica fica dez anos sem se envolver na direção de algum projeto grande, saudades se formam dentro de muitos corações. O diretor em questão é John Carpenter, este que ganhou o título carinhoso de ‘’mestre do horror’’. Não é para menos o título que o próprio recebeu, já que são de Carpenter trabalhos respeitáveis ao extremo, como por exemplo, Halloween (Idem, 1978) e O Enígma de Outro Mundo (The Thing, 1982). É bonito de observar que seus filmes possuem, todos, o DNA do próprio (como Augusto falou no texto para Vício Frenético). Sempre será presente em seus filmes algumas características como: desfecho curto e grosso, o implícito, o mal, o relacionamento bem desenvolvido entre personagens e público, e aquele velho estilo de realizar uma direção com técnicas descomunais entre os diretores mais populares.

 Claramente, Aterrorizada não é um Halloween ou O Enígma de Outro Mundo da vida, ou até mesmo um Eles Vivem (They Live, 1988). The Ward (o título original do trabalho) é na verdade um filme menor de John Carpenter, assim como Fantasmas de Marte (Ghosts of Mars, 2001). É totalmente visível que a trama de Aterrorizada é clichê e desgastada, mas nada como uma boa direção para consertar as coisas. Assistir ao novo trabalho do Carpenter normalmente conduz o espectador a uma lembrança repentina do mais recente trabalho de Sam Raimi como diretor, Arraste-me Para o Inferno (Drag Me to Hell, 2009). Em ambos os casos, os diretores aclamados e admirados por muitos se envolveram em projetos semelhantes e sob circunstâncias semelhantes. De um lado John Carpenter, afastado por muitos anos das telas de cinema, e de outro Raimi, que após se envolver anos e anos na trilogia do Homem-Aranha, dirige um filme que o faz retornar às suas raízes de origens (o terror). Aterrorizada, do mesmo modo que Arraste-me Para o Inferno para Sam Raimi, faz John Carpenter demonstrar mais uma vez seu talento para contar uma história de horror.

 Não há como analisar um filme como Aterrorizada sob o mesmo ponto de vista que serve para analisar um filme de Ingmar Bergman, cobrando um roteiro coerente ao pé da letra e interpretações sufocantes de tão convincentes. Se o roteiro é fraco e as atuações são comuns, John Carpenter faz o seu trabalho como um eficiente e raro contador de histórias. Por vezes o filme possui momentos previsíveis (quem dos fãs do gênero terror não conhece as velhas fórmulas?), mas isto pouco importa, até mesmo porque o objetivo de Carpenter aqui é outro. É um filme assustador; incrível como em plena atualidade, com o público acostumado com exploitation borbulhando na veia, John Carpenter consegue assustar o mesmo público por meio do desconhecido. E o gore também se faz presente, e para os padrões de Carpenter, é um verdadeiro banho de sangue; não que Aterrorizada seja de fato um filme onde o sangue fica pintando o set a todo o momento, mas vale lembrar que o estilo padrão de Carpenter conserva o implícito, e por vezes aqui, o próprio diretor dá o braço a torcer para o líquido vermelho e o explícito.

 A força central de Aterrorizada não está nos sustos, até mesmo porque não é um filme cujo objetivo central são os sustos gratuitos; a força central da obra está no seu contador. Carpenter dá ao filme um toque genial. Muitos filmes do gênero utilizam bem suas limitações orçamentárias, e observamos isto principalmente quando os mesmos dão aos personagens da trama um pequeno espaço limitado para se locomoverem. Observamos isto em A Casa (La casa Muda, 2010), Shock (idem, 1977), Lisa e o Diabo (Lisa e Il Diavolo, 1973), O Iluminado (The Shining, 1980) e muitos outros títulos; esses filmes dão aos personagens envolvidos diretamente com a trama, e consequentemente, também ao espectador, aquela atmosfera fechada que não deixa os mesmos com muita liberdade de ação perante o perigo. Este mesmo método de trabalho é aplicado ao novo filme do Carpenter, e o objetivo central em que o horror se manifesta é este. Um sanatório onde ninguém escapa e fica a mercê do perigo. Claustrofóbico.

 Em meio ao ambiente fechado com todos os personagens que a trama necessita, o espectador é submetido a um entrosamento com a trama. Não há para onde correr, o espectador não tem outra opção a não ser se envolver com o elenco e os tenebrosos corredores do sanatório que hospeda algo além da imaginação humana. Outro ponto forte é que diferente de muitos filmes convencionais do gênero, Carpenter se importa com o elenco. É quase impossível não sentir a relação agonizante entre as belas mulheres loucas, e ao decorrer da narrativa, um forte elo se forma com mais intensidade, deixando os olhos de todos testemunhando o que se passa em tela. Uma visão superficial que procura assistir filmes com o mesmo padrão de análise, julgando apenas o que for convencional aos padrões de premiações prestigiadas como o Oscar, jamais saberá qual é o verdadeiro valor de Aterrorizada. Desde já um novo clássico do diretor, e bastante subestimado. Um dia ganhará o devido reconhecimento.

Avaliação: 4/5

Victor Ramos

7 Comentários

Arquivado em enigmático, maldição, suspense, terror sobrenatural

7 respostas para Aterrorizada (2011) – Crítica

  1. Nem estreou direito e já é subestimado! uahuahahuaa
    Carpenter é talentosíssimo no trato de seus filmes, sempre o admirei por construir um clima de mistério e terror, alguns cheio de clichês, do que apostar em litros de sangue e besteiras arriscadas…
    É como se já conhecêssemos a história, mas se torna muito divertida quando bem contada novamente =D

  2. Washington

    Eu não pagaria 10 centavos por esse filme. De fato não vale a pena nem baixar de graça. É a mesma coisa de sempre: mocinhas bonitas com perfil de modelo(magrelas), sanatório e um assassino matando todo mundo. :S

    O cinema de terror já morreu, pessoal. Hoje o que os diretores querem é um dinheirinho dos adolescentes. Recriam um filme de terror pela milionésima vez pra chamar a atenção da moçada. Daqui a 2 anos ninguém mais lembra do filme.

    • Bobagem, meu caro… bobagem.

      Abs!

      • Shazan

        Poucos Sabem fazer filmes como carpenter Washington, pelo que vc comentou vc não assistiu o filme e nem deve mesmo os filmes de carpenter vão além da nossa capacidade de prever aterrorizada vai ser um classico ninguém sabe enigma de outro mundo quando foi lançado foi só critica hoje é um classico. Felizmente existem diretores que estão a frente do seu tempo e daqui uns 10 anos vamos assistir aterrorizada e dizer é um classico. Obrigado Carpenter por vc ser Diretor.

  3. Gustavo

    Adorei a crítica, mano. Todos os sites de terror que eu costumo entrar detonaram o filme e disseram que era a “ruína do Carpenter”. Fiquei até com medo de assistir o filme, achando que ia me decepcionar com meu ídolo. Mas quando vi, juro que amei. Adorei mesmo, é sério. E é muito bom ver que alguém mais gostou e fez uma crítica positiva. Claro que esse filme nunca superará Escape From NY, The Thing, The Fog ou Halloween (meu filme favorito), mas ainda acho que foi um retorno digno do mestre. Ótima crítica.

    • Obrigado, Gustavo,

      É tudo uma questão de visão mesmo. Eu compreendo o cinema do Carpenter, mas infelizmente muitos nem sequer sabem o papel do diretor para com sua obra… o gênero terror é subestimado demais; muitos acham que é movido por apenas um objetivo: provocar sensações sombrias no espectador. Muitos quando vão analisar esses filmes se limitam a argumentos como “o filme é clichê… mais do mesmo… roteiro fraco… elenco inexpressivo…”, incrível!

      Claro que não é um Halloween ou The Thing, como você falou, mas é um filme muito bom com um estudo de personagens que poucas vezes vi em um filme do cara, sem contar que a direção dele reserva muitos momentos brilhantes – destaque para a cena em que as malucas estão escutando música na salinha e, de repente, as luzes se apagam… as fracas luzes na escuridão, tentando enganar os olhos do espectador.

      Volte sempre!

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