Mudança de lar…

People, estamos abandonando o Pudim de Cinema. Mas não fiquem tristes! Estamos migrando para o Injeção Cinéfila (para se informarem melhor acerca das motivações desta mudança e do novo espaço, clique aqui!); além do mais, o Pudim permanecerá no ar com todos estes textos.

A proposta do nosso novo blog será a mesma, só muda que o espaço será mais organizado. Conto com vocês! Apareçam por lá e não se esqueçam de comentar!

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“Charity, Meu Amor” (1969) – Bob Fosse

Só tomamos pedra. Aquela conta que não saiu como previsto, aquelas situações que não chegam nem perto da idealização gerada e aquele relacionamento em que se depositava fé e evaporou tão rápido. O jeito é sorrir e continuar a caminhar, tentando reerguer a cabeça. E nunca se esquecer de sonhar, pois é isso que acaba alimentando a alma e, conseqüentemente, a alegria de viver. Não seria a vida, então, uma incansável busca pela felicidade? A esperança pode responder. Ela que já fez e fará tanto por Charity. A dançarina loira, de alma juvenil, a qual todos vêem, mas poucos a conhecem realmente.

Moça tão encantadora essa que um longa-metragem fascinante foi feito só pra contar sua história. A adaptação norte-americana do roteiro de “As Noites de Cabíria”, clássico europeu realizado pelo mestre Federico Fellini, é posta em vida nesse que é um dos gigantes trabalhos do diretor Bob Fosse. É de surpreender qualquer um o fato de Bob ter começado sua carreira já com uma obra-prima, nem sempre reconhecida como deve. Além de tornar explícitas suas maiores características na direção, seu filme é facilmente um dos grandes nomes dos musicais por volta da década de 70, explodindo em qualidade narrativa e estilo visual. É claro que sua obra não surgiu do nada: o roteiro é uma versão adaptada de uma película européia, o jogo de cores parece ter vindo dos visuais dos filmes de Jacques Demy, entre outros. Mas a arte da coisa está em justamente tornar, daquilo que o inspirou no passado, em presentes e novas fontes de vida fílmica.

É um obra inspirada e inspiradora. Prova disso é a grande referência a um dos grandes feitos de Robert Wise, o maravilhoso “Amor, sublime amor”, com a cena de “There’s Gotta Be Something Better Than This” muito parecida ao número ocorrido em um terraço vermelho cheio de escadas como plano de fundo, e os personagens cantando sobre suas esperanças de uma vida melhor. Fica claro também, quando assistimos ao número “The Aloof – The Heavyweight – The Big Finish”, que a obra foi foco para inúmeras influências futuras, uma claramente vista no clipe “Get Me Bodied” da cantora Beyoncé.

Visto tudo isso, fica claro que Fosse não hesita em demonstrar a fonte de sua inspiração, pelo contrário, quer mais é exibi-la. Com figurinos misturando desde os vestidos clássicos das musas de jazz até a mais escandalosa vestimenta de travestis em parada gay, estilo bem influenciado por Federico Fellini (novamente ele!) e suas deliciosas extravagâncias, o ambiente é de pleno êxtase visual que se expande principalmente com as coreografias energéticas e em plena coordenação, graças ao trabalho exímio do diretor, que é também dançarino e coreógrafo, que é também amante de um bom musical.

Seu filme possui uma personalidade chamativa, de luzes e cores variadas, como se visitássemos a boêmia e os clubes de jazz, transformando a sensualidade e fumaças de cigarro em sua própria atmosfera. Holofotes vermelhos costumam avisar quando as dançarinas farão seu trabalho, carregando suas roupas exageradas e maquiagem lotada. Elas chegam com seus saltos altos e dão início a coreografias tresloucadas, enquadramentos de câmera inusitados, muito calor e energia. Mantendo ainda o ar ingênuo e bem aproximado do teatral dos filmes clássicos musicais, mas já adicionando uma modernidade de captura da imagem (só ver o número composto de três frases pra saber do que estou falando) e temas não tão agradáveis assim, como a traição e desilusão, “Charity, Meu Amor” é um marco de transições em seu gênero.

Já em seu primeiro trabalho no ramo cinematográfico, Bob se permite as mais diversas “brincadeiras”. Em vários momentos, o diretor acaba por quebrar a linearidade de 24 quadros por segundo e foca somente uma imagem durante um certo tempo, como se fossem exibidas várias fotos, a fim de tornar a falta de movimento algo memorável, e consegue, principalmente quando o sorriso de Charity aparece inalterado por muitos segundos. Outra digna de notar é quando o filme sofre uma rebobinada, somente dentro dos números musicais, repetindo o presente que julgávamos já ser passado.

Realizando suas “brincadeiras”, percebe-se que Fosse tem certeza do que faz. Possui tanta segurança que arranca performances exemplares de seus dançarinos, e atores também. É indubitável que a o desempenho de Shirley MacLaine se equipara a de Liza Minelli em outro grande clássico feito por Fosse, “Cabaret”. Energética, feminina e brilhante, a atriz incorporou toda a vibração emocional de Charity, sua ingenuidade, alegria boba e empolgação, produzindo uma personagem extremamente adorável e memorável na história do gênero. Sua personalidade se expande e atinge a trama, de ininterrupto charme, encanto e ingenuidade ao transformar a traição e solidão em delírios de palavras e luzes, um sonho onde o que realmente importa é o buscar ser feliz.

A premeditada morte aos 60 anos foi uma lástima, porém, um verdadeiro artista deixa sua arte viva após sua partida e, no caso de Fosse, pelo menos outras duas obras-primas. É difícil não se entregar à doçura de Charity, às vibrações dos passos de dança, à música lavando a alma e o ritmo de uma existência que apenas levanta os ombros para os problemas e dá espaço para um novo dia chegar. Não importam quantas pedras a atingirão, Charity continuará sempre a sorrir.

Nota: * * * * *

 

- Bruno Santos

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Pague para Entrar, Reze para Sair (1981) – Crítica

Pague para Entrar, Reze para Sair – título chamativo, sem dúvidas. É por este título que The Funhouse, de Tobe Hooper (diretor de O Massacre da Serra Elétrica), é conhecido no Brasil. Hoje sim pode ser visto como um dos vários – pequenos – clássicos do cinema de horror oitentista, mas nem sempre foi assim: um passado negro de fracasso nas bilheterias o marca. Entretanto, é um filme ainda muito desvalorizado, deixado às massas mais marginais dessa levada cinéfila, por vezes caindo no limbo. É fácil gostar de Funhouse, mas depredá-lo também é. Sendo assim, eis aqui um texto que contraria muitas das ideias negativas que são mantidas a respeito dele.

Há muitos textos que apontam as várias falhas de Funhouse, coisas tolas – desde “clichê” à “atuações”. Mas, sinceramente, não há nada mais clichê do que pegar um filme, analisá-lo sob a fórmula mais básica que se tem notícia (“Primeiro eu tenho que olhar as atuações… ver se o filme tem clichês… ah, a direção também… e o roteiro!”) e, por fim, escrever uma resenha; se para analisar um filme de Bergman é necessário um processo reflexivo, certamente para um filme de Hooper o caso é o mesmo – afinal cinema é cinema, independentemente do gênero.

Funhouse é um slasher (“açougueiro”, traduzido) definitivo, assim como Sexta-Feira 13 e Halloween; a principal característica do estilo são os personagens adolescentes que vivem mergulhados na rebeldia, personagens jovens que tentam lutar contra os erros do mundo por meio de protestos – as drogas, o sexo, o rock n’roll. Sendo Hooper um dos principais construtores deste tipo de personagem – título concebido pelo primeiro slash do cinema, O Massacre da Serra Elétrica -, Funhouse não poderia fugir dos costumes de sua terra natal. Logicamente que por trás desses mocinhos há um vilão sanguinário, pronto para pintar desgraça no set.

Os jovens maconheiros estão aqui, o sexo está aqui, a violência banalizada está aqui, as atitudes idiotas por parte das mocinhas também estão aqui. Assistir Funhouse hoje, mesmo sendo pela primeira vez, dá a sensação de estar assistindo a um filme específico pela milésima vez. A experiência final não é inédita, mas há tantos detalhes avulsos que merecem destaque; aquele cenário de horror, por exemplo, foi meticulosamente trabalhado para mexer com o psicológico de quem o assiste.

O que mais me chamou a atenção neste filme foi a quebra entre fantasia e realidade que ele faz. As crianças normalmente são criadas dentro de um cubículo, separadas da verdadeira face do mundo; a violência, coisa tão natural, é motivo de choque para muitos. Os protagonistas de Funhouse são jovens tolos, ingênuos, que não sabem o verdadeiro significado da face má da sociedade; eles entram naquele parque, alegres como menininhos, e brincam como nunca em suas vidas, como se tudo fosse perfeito.

Num assassinato testemunhado por eles, o encanto se quebra; eles passam a sentir o choque da realidade, e o perigo os acompanha. A ação tarda um pouco a ser expor, mas nesse tempo inicial, enquanto ela não nos é revelada, Hooper aproveita para diluir a trama e seus personagens, passeando pelo parque de diversões enquanto este não se transforma em um palco de horrores.

Outros atrativos existem. Há diversas referências agradáveis a filmes como Halloween – simulando o ponto de vista do assassino em série – e Psicose – a famosa cena do chuveiro -; além dessas já citadas, há relações poderosas com a literatura fantástica: referências a Drácula, ao clássico romance Frankenstein, etc. Mas Funhouse não vive só de promessas; é um filme que vai lá e faz, com um assassino diabolicamente astuto capaz de transmitir horrores sinceros – seu visual macabro é o ponto-gênese. Rick Baker, respeitável supervisor de maquiagens e efeitos visuais, foi o responsável pela convincente face bizarra do monstro.

Quando as coisas realmente começam a ficar feias, o palco atmosférico fica desesperador e cruel. O sentimento de culpa de um rapaz por ter assassinado – sem querer – um de seus amigos, ou o momento em que nossa garota – após passar por aquele tortuoso processo terrível – finalmente tem chance de olhar para o mundo através de outros olhos, ou a outra garota que tenta usar o sexo como instrumento para salvar sua vida; tudo isso tem peso em Funhouse. Um os slashers mais divertidos e atmosféricos (e por que não reflexivos?) que tive o prazer de ver, que consegue sem muita delonga mostrar para quê o cinema foi feito: entreter, mas com qualidade.

Avaliação: 4/5

Victor Ramos

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Seu Último Refúgio (1941) – Crítica

High Sierra, Raoul Walsh

O país captado pela câmera de Raoul Walsh está gritando de desespero. Assim como em outros de seus filmes, como “Heróis Esquecidos”, para dar um exemplo, vemos pessoas desiludidas, sem esperança, sem força. São personagens que correm atrás do sucesso a qualquer custo, trilham o caminho necessário – legal ou não, mas as regras são demasiadamente restritas e poucos conseguem o tão buscado alívio. O tapa-olho que Walsh usava era intimidador, seus filmes também. São filmes que incomodam, cheios de fúria. “Seu Último Refúgio” não é um caso diferente.

A maior parte do filme se passa afastada da zona urbana, a ‘sierra’ do título original, o ‘refúgio’ do título traduzido. E é importante esse senso geográfico, já que “Seu Último Refúgio” fala principalmente sobre a busca pela liberdade. Liberdade no mais amplo sentido que a palavra possa ter. Então temos pessoas buscando fugir de diversas situações, como um relacionamento, uma deficiência física, a prisão, e por aí vai. E o importante é que Walsh é cruel com seus personagens. Essas tais trilhas que eles percorrerão são muito cruéis, o diretor não os poupa de nada. Eles experimentam alguns poucos instantes de satisfação, para logo em seguida a realidade voltar a dar as cartas. Um sorriso logo é seguido de uma lágrima rolando.

E acredito que o filme já comece acertando na escolha do ator para ser o protagonista. Estamos falando de alguém calejado, cansado de ter que viver à custa do passado, cheio de cicatrizes produzidas pelo tempo. Não consigo pensar em alguém melhor para interpretar esse tipo de personagem que Humphrey Bogart. Ele é um dos atores que parecem ter nascido para interpretar esse personagem típico do noir. Roy Earle busca a liberdade. Logo no começo do filme já conseguimos sentir isso quando ele, logo ao sair da prisão, pede para dar uma caminhada no parque da cidade. Walsh acompanha os passos de Roy, seus sapatos tocando a grama, seu rosto enquadrado junto às árvores e o céu, representando seu desejo de estar livre.

Mas, como o próprio Roy sabe, o mundo não ficou parado enquanto ele cumpria os oito anos de prisão. A saída a prisão não foi de graça, ele tem deveres a cumprir. A vida de crimes não vai larga-lo tão fácil, mas mesmo assim ele tenta compensar os danos de outras formas, planejando o futuro de calmaria. Mesmo afundados na lama, os personagens que Walsh filma possuem esperança, eles não param de buscar algo melhor, fazendo com que possamos ter uma conexão maior com eles. Mas as conclusões podem ser mais doloridas. Temos também a garota que tem uma deficiência em um dos pés, e que Roy se apaixona e decide pagar o tratamento. Seria a história de amor perfeita, mas o mundo não segue esses padrões. Claro que a menina fica feliz por ter seu problema corrigido, mas as emoções não seguem a lógica. Ela já está pensando em outra pessoa. Roy fica pra trás.

“Seu Último Refúgio” continua mostrando a busca de seus personagens pela tal liberdade. Na verdade, ao final do filme, vemos que o ‘refúgio’ do título não era apenas a serra, mas é algo muito mais devastador. Se todos os personagens são presos a algo, e por mais que busquem, não conseguem alcançar os objetivos, qual a saída.

4/5

Augusto Cesar

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A Pele que Habito (2011) – Crítica

Sou uma pessoa sensível, não melodramática. Gosto de sentir as lágrimas escorrendo em meu rosto, mas não gosto de assistir filmes chorosos; gosto de emoção provocada pela naturalidade. Para mim há uma diferença muito grande entre “filme emocionante” e “filme choroso” – apesar de pertencerem naturalmente ao mesmo gênero: o Drama. Um “filme emocionante”, para mim, é aquele que consegue passar com frieza sua mensagem para o espectador, provocando a queda de lágrimas deste – um filme que emociona -; já o “filme choroso” é aquele que faz o barato joguinho de quem-é-que-chora-mais, cujos personagens só fazem romper suas cachoeiras lacrimais, mas nunca conseguem atingir o espectador – na pior forma de uma barata novela mexicana, que tenta apenas, involuntariamente, comover a si própria. Este segundo e apelativo estilo brega é muito compatível com o gosto do espanhol Pedro Almodóvar, e justamente por isso certos trabalhos dele não me caem no estômago; mas o homem tem sensibilidade artística e um amplo conhecimento cinematográfico, fatores estes que ganham minha admiração.

A Pele que Habito é um filme cuja existência sempre desejei. Esperava ver todo o talento de Almodóvar depositado em um gênero mais frio; quando por fim foi anunciado que o cineasta iria dirigir um filme de terror, fiquei muito feliz. Já imaginava como o resultado do trabalho sairia: doses de humor negro, situações bizarras, personagens bizarros e confusos, um enredo explorado com cautela, etc. Ou seja, um filme feito ao velho estilo de Alfred Hitchcock. Após minha experiência com A Pele que Habito, o resultado foi o previsto: um trabalho na linha do estilo hichcockiano. Mas Almodóvar nem por isso descarta seus velhos hábitos pervertidos, algo típico em seus filmes: ele testemunha com minúcia o corpo masculino, num rito quase sexual – o que pode manter algumas pessoas afastadas. Todavia, as várias propostas que o filme contém podem despertar no público mais aberto um imenso interesse para com o mesmo.

O que A Pele que Habito representa? Uma reflexão sobre a liberdade sexual? Sobre a incógnita forma humana? Sobre as máscaras éticas? Na verdade é um filme que representa tudo isso e muito mais. E para compor essas mensagens, seu realizador viaja claramente pelo mundo da história do cinema; este filme faz um breve uso do estilo Noir para fazer uma espécie de releitura da clássica obra Os Olhos Sem Rosto (1960), de Georges Franju. Mas olhando de uma forma rasa, o filme ainda continua muito belo; como um thriller simples, A Pele que Habito continua esbanjando beleza, começando pelos misteriosos personagens, que vão ganhando forma conjuntamente com a evolução da trama. O filme se inicia com uma bela mulher, mas não sabemos seu nome, por enquanto; momentos depois seu nome é revelado. Olhamos para Vera e não sabemos o porquê daquela situação dela, por enquanto. O filme é uma flor que vai se abrindo aos poucos, revelando periodicamente uma nova forma. Ao final, a flor se torna um fruto saboroso – ora doce, ora azedo.

Como de costume, as circunstâncias são exploradas e passamos a compreender as atitudes de cada personagem. Roberto é um homem mau? O rapaz que estuprou Norma foi mau? Existe verossimilhança no caminho de paixão trilhado por Roberto? As perguntas são respondidas, basta apenas que espectador olhe além da teoria patológica. Um filme que vai muito além da mera barreira do gosto pessoal. Experiência rara, principalmente para os fãs do cineasta espanhol. Emocionante.

Avaliação: 5/5

Victor Ramos

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Os Homens Preferem as Loiras (1953) – Howard Hawks

Dentre os musicais clássicos de Hollywood, talvez “Os Homens Preferem as Loiras” seja o mais superficial de todos, mas, quem diria, tal detalhe não é um defeito. Tomando a seu favor a ótica do externo e a falta de profundidade, Howard Hawks acabou por tornar seu filme um maravilhoso musical cheio de inegável energia e personalidade, nem sempre politicamente correta. Contando com a produção feita pelo estúdio Twentieth Century Fox e com um elenco brilhante, o filme se estabeleceu como uma das grandes obras de 1953 e um orgulho na carreira de muitos dos envolvidos, por ser essa mistura de músicas inesquecíveis, boas atuações e uma direção eficiente para um roteiro genialmente satírico.

Adaptando uma das famosas peças da Broadway, a obra narra a história de duas belas dançarinas, Lorelei (Marilyn Monroe) e Dorothy (Jane Russell), que vão viajar num cruzeiro rumo a Paris para estrelarem sua mais nova peça. O sogro de Lorelei contrata um detetive particular (Elliot Reid) para vigiá-la e conferir se ela não comete alguma infidelidade contra seu filho, um homem bem-sucedido e bastante ciumento. É claro que esta trama simples servirá para muita comédia, confusões e cenas musicais de cair o queixo, sendo a base para essa imperdível comédia musical com pitadas de romance.

Como dito anteriormente, é difícil encontrar um filme como esse que é capaz de transformar o materialismo e superficialidade em grandes benefícios para si. O espetáculo cor-de-rosa estrelando Marilyn Monroe é a principal das lembranças daqueles que já se aventuraram no musical, não só por ser uma das cenas de máximo glamour visual e vocal na carreira da diva, mas por traduzir a linguagem divertida da obra, a de confessar que toda mulher adora dinheiro e todo homem ama dar esse conforto às suas damas, isso, no plural mesmo. A alegria material é o grande ponto de referência aqui, dando destaque às preciosidades e golpes em detrimento do coração… Mas, quem liga?

Afinal, há arte mais cômica e acessível do que estereotipar tudo e todos? As figuras clássicas dão cara á tapa nas telas e não estão nem aí. O velho adúltero, a loira interesseira, os jovens sarados loucos por uma noite de amor, o que importa é a aparência e o discurso politicamente incorreto declarado durante a projeção, quase um protesto contra todo aquele sentimentalismo barato de vários dos musicais anteriores e seus estilos uniformes e comportadinhos, como se o gênero só fosse composto de obras doces e cheias de bondade alheia. Todos sabiam no que estavam se metendo, e fizeram com classe.

Será que todo filme precisa de grandes filosofias, girar ao redor de grandes questões intelectuais? Não. Será que todo filme precisa de inteligência? Sim! E “Os homens preferem as loiras” possui tal. A rapidez das piadas, fundamental para o timing perfeito de qualquer comédia que se preze, é construído por Hawks e enunciado pelo elenco, cada sacada já é logo substituída por outra. É aquele humor classudo, que não se vende pra tiradas idiotas ou cenas que nada tem a contribuir para o andamento de tudo. Talvez o grande truque da comicidade está nas várias frases de duplo sentido, prontas para divertir qualquer um com mente poluída ou rapidez na captação dessas possibilidades deixadas pelo roteiro insinuante, adicionando diálogos ingênuos e ao mesmo tempo libidinosos, coisa de mestre mesmo.

É um filme cuja essência continua tão viva como o dinheiro segue fundamental. Os pecados capitais se convertem em prazeres efêmeros e vida vira um luxo banhado a músculos e diamantes, principalmente para os sorrisos ambiciosos de Monroe. Esse materialismo guloso é representado nos maiores sonhos burgueses, filmados com brilho, nos melhores e mais clássicos filmes hollywoodianos com humor, ironia e ideais nem sempre considerados corretos. Como se não bastasse a imortalidade de “Diamonds are a girls best friend” e uma dupla feminina em perfeita forma, todo o espetáculo é comandado por aquele que se tornou uma lenda em Hollywood, transformando os diversos batons vermelhos, tiaras valiosas e flertes gratuitos numa pequena obra-prima musical dos anos cinqüenta, década de inúmeros clássicos do gênero, como “Cantando na chuva” e “A roda da fortuna”. Se a obra tivesse que ser resumida em uma frase, seria simplesmente: Um delírio hawkiano.

Avaliação: 4/5

Bruno Santos

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Saneamento Básico – O Filme (2007)

Numa pequena cidade gaúcha, os habitantes sofrem com a falta de uma fossa para o tratamento do esgoto local, o que faz com que haja um odor na região, juntamente com doenças. Depois de uma reunião com alguns moradores, Marina (Fernanda Torres) e seu marido Joaquim (Wagner Moura) vão até a subprefeitura da cidade para exigir que façam a obra, mas chegando lá a secretária explica que não possuem recursos, apenas um dinheiro enviado de Brasília para a produção de um vídeo. Então Marina decide fazer um filme sobre a necessidade da construção da fossa. Este é o enredo de Saneamento Básico – O Filme, o, até agora, último longa de Jorge Furtado, diretor dos brilhantes Ilha das Flores e Um Homem que Copiava, que nos entrega uma ótima comédia com situações simples, baseadas no desespero das personagens, principalmente a protagonista, em conseguir com que o filme seja feito para que o dinheiro possa ser aplicado na obra.

Logo após de ter a ideia de fazer o tal filme, Marina tenta convencer os outros a ajudá-la: seu pai Otaviano (Paulo José), que acha a ideia ridícula; sua irmã adotiva Silene (Camila Pitanga), que é uma moça vaidosa e se empolga com a ideia e o namorado (na verdade, a filmadora dele) de Silene, Fabrício (Bruno Garcia).

Saneamento Básico retrata pessoas muito simples, levadas pela espontaneidade, esta tratada com muito carinho por Furtado e responsável por vários momentos engraçados do filme. Seria impossível falar sobre apenas uma situação dessas. Voltando um pouco, o plano inicial de Marina seria um filme baseado na construção da fossa. Mas uma das “condições” para o vídeo é que seja uma ficção. E é totalmente hilário o processo em que Marina e Joaquim tentam descobrir o que seria ficção. De acordo com Otaviano, um filme de ficção é um filme de futuro, de monstros, de algo que não existe. Joaquim questiona: mas e se for um filme de monstros que se passa no passado? Ou seja, não necessariamente deve haver monstros. Mas, numa consulta ao dicionário, ficção está relacionada à imaginação, sonho, quimera. E de acordo com o próprio dicionário, quimera é um tipo de monstro mitológico, então é necessário ter um monstro?

Ao ler, provavelmente deve ser até ruim, tem que ver pra se divertir. E reflexões como essas acontecem aos montes na película. Durante as filmagens, por exemplo, o jeito que eles dão para mostrar em que loja um vestido foi comprado é simplesmente genial.

Por falar em filmagens… Ah sim, o amadorismo das personagens também proporcionam sinceras gargalhadas, seja na elaboração do roteiro ou, principalmente, nas filmagens. Não sei o que Furtado fez para transformar profissionais do ramo da atuação em canastrões dentro do filme, só pode-se dizer que o resultado é perfeito: da dupla de operários iniciais até o “montro da fossa” com sua dancinha, todos são verdadeiros robôs tanto nos movimentos quanto nas suas falas.

Em certo momento, o pai de Marina questiona sobre a edição do vídeo. Ela afirma que estão gravando as cenas em sequência, mas param pra refletir que é preciso uma edição. Nessas, aparece Zico (Lázaro Ramos), que dá ao filme um gás ainda maior.

Posso estar sendo exagerado ou algo do tipo, mas particularmente enxerguei no filme uma infinidade de personagens típicas. Como já disse, são pessoas pobres, humildes e por vezes tolas e ingênuas, que têm dificuldades em fazer um discurso num microfone ou de encontrar a escrita correta de algo, que se contentam com pequenos detalhes, seja com a pessoa amada ou com um elogio. A personagem Silene é o principal exemplo disso: ao ser elogiada demasiadamente por Zico, que a denominou como uma estrela talentosa, ela fica de peito estufado no restante das cenas do “filme dentro do filme”, igualmente quando vão assistir o projeto já finalizado(e eventualmente é aplaudida). Também há os velhos teimosos e cheios de costumes e sotaques, o político que, diante da mídia, finge ser alguém honesto, bondoso e preocupado com seu povo, etc.

Baseando nesta análise, lembro-me bem dos estereótipos que muitas vezes são criados pra cima dos filmes brasileiros. Não sei quanto a vocês leitores, mas eu já ouvi algo do tipo: “filme brasileiro só tem palavrão, violência, favela e putaria”. Só tenho a lamentar por quem pensa assim.

E ao terminar de assistir Saneamento Básico e lembrar disso que ouvi, cheguei a conclusão de que o retrato do Brasil não deve apenas ser lembrado por causa de Central do Brasil e a pobreza, Cidade de Deus e as favelas, Tropa de Elite com violência e polícia-e-ladrão e tudo mais. Resumindo: Jorge Furtado mostra uma outra faceta de nossa sociedade.

Avaliação: 4/5

Italo Lobo

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