
Numa pequena cidade gaúcha, os habitantes sofrem com a falta de uma fossa para o tratamento do esgoto local, o que faz com que haja um odor na região, juntamente com doenças. Depois de uma reunião com alguns moradores, Marina (Fernanda Torres) e seu marido Joaquim (Wagner Moura) vão até a subprefeitura da cidade para exigir que façam a obra, mas chegando lá a secretária explica que não possuem recursos, apenas um dinheiro enviado de Brasília para a produção de um vídeo. Então Marina decide fazer um filme sobre a necessidade da construção da fossa. Este é o enredo de Saneamento Básico – O Filme, o, até agora, último longa de Jorge Furtado, diretor dos brilhantes Ilha das Flores e Um Homem que Copiava, que nos entrega uma ótima comédia com situações simples, baseadas no desespero das personagens, principalmente a protagonista, em conseguir com que o filme seja feito para que o dinheiro possa ser aplicado na obra.
Logo após de ter a ideia de fazer o tal filme, Marina tenta convencer os outros a ajudá-la: seu pai Otaviano (Paulo José), que acha a ideia ridícula; sua irmã adotiva Silene (Camila Pitanga), que é uma moça vaidosa e se empolga com a ideia e o namorado (na verdade, a filmadora dele) de Silene, Fabrício (Bruno Garcia).
Saneamento Básico retrata pessoas muito simples, levadas pela espontaneidade, esta tratada com muito carinho por Furtado e responsável por vários momentos engraçados do filme. Seria impossível falar sobre apenas uma situação dessas. Voltando um pouco, o plano inicial de Marina seria um filme baseado na construção da fossa. Mas uma das “condições” para o vídeo é que seja uma ficção. E é totalmente hilário o processo em que Marina e Joaquim tentam descobrir o que seria ficção. De acordo com Otaviano, um filme de ficção é um filme de futuro, de monstros, de algo que não existe. Joaquim questiona: mas e se for um filme de monstros que se passa no passado? Ou seja, não necessariamente deve haver monstros. Mas, numa consulta ao dicionário, ficção está relacionada à imaginação, sonho, quimera. E de acordo com o próprio dicionário, quimera é um tipo de monstro mitológico, então é necessário ter um monstro?
Ao ler, provavelmente deve ser até ruim, tem que ver pra se divertir. E reflexões como essas acontecem aos montes na película. Durante as filmagens, por exemplo, o jeito que eles dão para mostrar em que loja um vestido foi comprado é simplesmente genial.
Por falar em filmagens… Ah sim, o amadorismo das personagens também proporcionam sinceras gargalhadas, seja na elaboração do roteiro ou, principalmente, nas filmagens. Não sei o que Furtado fez para transformar profissionais do ramo da atuação em canastrões dentro do filme, só pode-se dizer que o resultado é perfeito: da dupla de operários iniciais até o “montro da fossa” com sua dancinha, todos são verdadeiros robôs tanto nos movimentos quanto nas suas falas.
Em certo momento, o pai de Marina questiona sobre a edição do vídeo. Ela afirma que estão gravando as cenas em sequência, mas param pra refletir que é preciso uma edição. Nessas, aparece Zico (Lázaro Ramos), que dá ao filme um gás ainda maior.
Posso estar sendo exagerado ou algo do tipo, mas particularmente enxerguei no filme uma infinidade de personagens típicas. Como já disse, são pessoas pobres, humildes e por vezes tolas e ingênuas, que têm dificuldades em fazer um discurso num microfone ou de encontrar a escrita correta de algo, que se contentam com pequenos detalhes, seja com a pessoa amada ou com um elogio. A personagem Silene é o principal exemplo disso: ao ser elogiada demasiadamente por Zico, que a denominou como uma estrela talentosa, ela fica de peito estufado no restante das cenas do “filme dentro do filme”, igualmente quando vão assistir o projeto já finalizado(e eventualmente é aplaudida). Também há os velhos teimosos e cheios de costumes e sotaques, o político que, diante da mídia, finge ser alguém honesto, bondoso e preocupado com seu povo, etc.
Baseando nesta análise, lembro-me bem dos estereótipos que muitas vezes são criados pra cima dos filmes brasileiros. Não sei quanto a vocês leitores, mas eu já ouvi algo do tipo: “filme brasileiro só tem palavrão, violência, favela e putaria”. Só tenho a lamentar por quem pensa assim.
E ao terminar de assistir Saneamento Básico e lembrar disso que ouvi, cheguei a conclusão de que o retrato do Brasil não deve apenas ser lembrado por causa de Central do Brasil e a pobreza, Cidade de Deus e as favelas, Tropa de Elite com violência e polícia-e-ladrão e tudo mais. Resumindo: Jorge Furtado mostra uma outra faceta de nossa sociedade.
Avaliação: 4/5




Italo Lobo